quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O CULTO REFORMADO SÓ PODE ENTOAR SALMOS?


            Um membro da igreja que pastoreio perguntou se historicamente e biblicamente é correto cantarmos apenas Salmos em nossos cultos de orientação teológica reformada? É uma boa pergunta e por isso buscarei desenvolver argumentos bíblicos e históricos para contribuir para um bom entendimento sobre essa questão. Obviamente não desenvolverei longamente esse artigo para não ser enfadonho, mas conciso e bíblico na construção.
Realmente a Confissão de Fé de Westminster em seu capítulo XXI – Do Culto Religioso e do Dia de Descanso, na seção V fala sobre cantar com Salmos: ...o cântico de salmos com graça no coração,...[1] E o Diretório de Culto de Westminster também orienta o uso dos Salmos como cântico na igreja durante o culto.[2] Em um dos trechos do Diretório diz: Quando a Igreja estiver novamente reunida,..., um andamento igual no orar, ler, pregar, cantar Salmos e ofertar mais louvor e ações de graça, como aquilo que já foi instruído para a manhã. Então, tudo aparentemente indica que ser calvinista realmente é defender ardorosamente apenas os Salmos como cânticos a serem entoados no culto!
Temos que iniciar primeiramente entendendo qual a importância e função dos símbolos de fé de Westminster nas Igrejas Presbiterianas Reformadas! A Igreja Presbiteriana do Brasil entende que o princípio fundamental para a igreja é a Escritura, e que os concílios e declarações destes, como os do Concilio na Capela de Westminster, devem ser observados se estiverem em conformidade com a Bíblia. Nenhuma Confissão Reformada é infalível em sua interpretação dos textos bíblicos.[3] A Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil, a qual pertenço, defende o mesmo posicionamento da IPB  em sua Constituição e Ordem com a seguinte introdução, item 2: A Igreja tem as Escrituras Sagradas do Antigo e Novo Testamentos como a única regra de fé e prática, adota o regime presbiteriano de governo, aceita os Símbolos de Westminster (Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve Catecismo, tradução brasileira) como seu sistema doutrinário e rege-se pela presente Constituição e Ordem.[4] Tanto a IPB quanto a IPCB tem como símbolos de fé a Confissão de Westminster e os seus catecismos.[5] Não irei aqui mencionar outras igrejas presbiterianas, por não ser esse o proposito, porém a que pertenço e a primeira e mais importante no cenário presbiteriano brasileiro.
O Diretório de Culto de Westminster não é símbolo de fé para as igrejas reformadas, é apenas uma direção litúrgica, com princípios bíblicos gerais e não “mandamentos litúrgicos”, a não ser aqueles que realmente são normativos biblicamente, nesse caso não é por causa do Diretório, mas por causa da Escritura!
O contexto em que a Confissão de Westminster com seus catecismos e o Diretório de Culto foram feitos é de luta para reformar completamente as Ilhas Britânicas, principalmente a Inglaterra. A Igreja Anglicana por muito tempo havia dominado o cenário religioso britânico, impondo sobre os ministros reformados práticas católicas, com o Livro de Oração Comum, que continha muitas orientações contrárias as Escrituras. Os reformados ingleses por lutarem por uma reforma completa, foram chamados ironicamente de Puritanos, pois o lema deles era: Igreja, Liturgia Pura, Vida Pura, e Governo Puro!
No Diretório de Culto de Westminster, publicado pela editora Puritanos, a introdução foi feita pelo Ian Breward que afirmou o seguinte sobre essas resoluções litúrgicas: ...Embora não tivesse obtido êxito e suas metas, e possuísse alguns pontos bem fracos, foi um importante precursor das tentativas de fornecer uma estrutura mais bíblica para o culto, que evocasse uma resposta apropriadamente teocêntrica da parte dos adoradores. Mais adiante e continua:
Os compiladores desejavam apaixonadamente encontrar uma forma de culto que unisse os cristãos da Inglaterra e Gales, Escócia e Irlanda e que fosse aceitável às Igrejas Reformadas da Europa e América do Norte. Procuravam abarcar uma amplitude muito maior na prática e convicção do que a encontrada em qualquer das atuais igrejas britânicas.
A luta deles era ferrenha para limpar a Igreja dos ranços católicos, por isso podemos entender o zelo em orientar as igrejas que cantassem apenas Salmos, algo que não seria rejeitado em nenhuma igreja reformada do mundo da época!
O que a Bíblia diz sobre essa questão? Creio que não preciso mostrar que no Antigo Testamento o povo da Aliança cantava Salmos! O que significa Salmos? Significa uma coleção de cânticos, hinos e poemas hebraicos, que foram compostos em vários períodos da história de Israel.[6] No hebraico Salmo é “mizmor” e no grego o correspondente é “psalm”. O sentido provável dessas palavras é de cânticos acompanhados por instrumentos musicais. Esses Salmos representavam as lutas, esperanças, tristezas, alegrias, do povo da aliança! Eles foram escritos para acima de qualquer outra função, para serem cantados, um por um, não necessariamente na ordem canônica, explica [7]
E o Novo Testamento o que diz sobre isso? Não diz muita coisa sobre cânticos no culto, não existe uma regra absoluta de passos para a liturgia, existem princípios imutáveis, como: a centralidade da adoração ao Deus triuno, a ênfase na pregação da Palavra, a oração, a comunhão, reverência, disciplina, ofertas, e os cânticos de ações de graças (Ap 4.8,10-11; 5. 7-14; At 4.23-25; 1 Co 11.17-34; 14.40; 16.1-4;2 Co 9. 1-15). E os Salmos como cântico? Pense comigo, se fosse uma ordem de Deus para a Igreja de Cristo só cantar Salmos no culto, não haveria muitos textos que reafirmariam isso e deixaria claro, como é caso da Ceia, do batismo, da disciplina, da generosidade financeira, da exposição bíblica, do amor na comunhão...?
Vou expor os poucos textos no Novo Testamento que podem ser utilizados para defender essa tese litúrgica. O primeiro que posso citar é Mateus 26.30, que diz que: E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras. Esse hino cantado por Jesus e os discípulos era algum Salmo? Segundo o Dr. Carson foi cantado provavelmente por eles a última parte de um desses Salmos:114, 115 ou 118, que era chamado de Hallel, que Jesus como líder lia e os discípulos respondiam com Aleluia! O que, sendo assim, deve ter sido muito emocionante![8] Creio que é possível que Jesus com os discípulos tenham cantado um Salmo ou mais, mas seria isso argumento para que a Igreja só cantasse Salmos no culto? Ou a passagem ensina a instituição da Ceia como sendo uma normativa para a Igreja em todos os tempos? É importante dizer, que Dr. Carson nem sequer menciona a possibilidade dessa normativa para a igreja em seu comentário, eu que apenas utilizei um possível argumento nesse sentido e sua incoerência, caso exista! Sem contar que Jesus nesse momento vive a transição do judaísmo para o período da igreja, o que seria natural como judeus cantar Salmos.
Todavia, o texto mais polêmico nesse sentido é sem dúvida Efésios 5.19: falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais. Aqui temos realmente uma menção de louvor musical com salmos pela igreja. Mas seria na passagem uma forma ou conteúdo do cântico, ou a ênfase é uma vida cheia do Espírito Santo que se exterioriza em uma vida diária de adoração com cânticos individuais e coletivos; com ações de graças (verso 20), com submissão mutua nas relações eclesiásticas (verso 21; no casamento com submissão da mulher ao marido e amor do marido a esposa, tendo como padrão em ambos a relação da igreja com Cristo (versos 22-33); na relação de pais e filhos (6.1-4); na relação profissional (6.5-9)? O Dr. Martin Lloyd Jones comenta assim o resultado apresentado por Paulo de uma vida cheia do Espírito Santo: ...Quando os homens e as mulheres são dominados pelo Espírito Santo na mente, no coração e na vontade, essa é o tipo de vida que levam. Prossigamos, continuemos sendo dominados pelo Espírito Santo, que habita em nós como “hospede bondoso e bem disposto.”[9]
Se Paulo está normatizando cantar somente Salmos na igreja, então esta normatizando também escravos em todos os tempos (6.5-9), pois estão no mesmo contexto de ensino! Ninguém concordaria com isso, mas Paulo está dando diretrizes bíblicas sobre o que deve ser feito por aquele que presta culto a Deus cheio do Espírito Santo. Outro aspecto deve ser observado, é que em toda a passagem citada como resultado de uma vida cheia do Espírito é dentro da comunidade cristã, seja casa (como era no período apostólico) seja em prédios como hoje, porém envolve a vida diária do crente em todas as áreas da sua vida e não apenas em comunhão para adoração! O contexto não envolve fortemente o sentido de culto coletivo, mas culto na vida que naturalmente leva ao culto coletivo! Fazer dessa passagem um argumento normativo para ordenar a igreja do século XXI a cantar apenas Salmos, desprezando o contexto da passagem e seu ensino principal, além disso, toda uma história de homens e mulheres de Deus que foram tremendamente usados para compor belos hinos, fundamentados na Escritura, é no mínimo sem sentido!
As expressões usadas por Paulo no texto são todas relacionadas a Salmos? Não, apenas a primeira “psalmos”, os outros termos “hino” e cânticos espirituais” correspondem a cânticos que eram entoados no período romano para um deus herói, que Paulo aqui utiliza para atribuir ao verdadeiro herói e Deus, Cristo![10] Os hinos e cânticos espirituais referem-se muito provavelmente a todos os cânticos que foram produzidos pela igreja primitiva do mesmo caráter bíblico dos Salmos, obviamente não inspirados, mas fundamentados na Escritura.
O apóstolo compõem cânticos a Cristo nesse caráter de vitorioso como os romanos faziam aos seus heróis (1 Tm 3. 16: ...Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espirito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. Na própria carta aos Efésios existem evidencias fortíssimas de trechos de hinos compostos pela Igreja Primitiva que não eram Salmos do Antigo Testamento como no capítulo 4.4-6, ou 5.14. Vemos outras possíveis partes em 1 Timóteo 1.17: Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém. Ou no capítulo 6.16 dessa mesma carta: o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém. Temos três opções para essas passagens: Paulo era compositor; ou citou uma música biblicamente correta cantada pela igreja primitiva; ou ainda os trechos mesmo tendo toda estrutura de cânticos espirituais, não são!
Existem dados históricos que falam dos cristãos primitivos cantando hinos a Cristo, como sendo fosse um deus, na visão de historiadores seculares, como Plínio.[11] Logo, temos evidencias textuais, contextuais e históricos que demonstram claramente que além dos Salmos, a igreja primitiva cantava hinos compostos por irmãos com o dom para a música!
Considerações Finais
Você pode pensar que estou combatendo a interpretação dos teólogos de Westminster!? Não, eu a subscrevi quando fui ordenado ao ministério! Entendo apenas que não foram inspirados na interpretação das Escrituras, podendo ter cometido falhas. E que no momento histórico que viviam, foi o caminho que acharam para lutar contra as heresias litúrgicas na Inglaterra. Defendo que não tiveram a intenção de normatizar essa prática, mas de fornecer direcionamentos bíblicos para todas as épocas, que é prestar um culto teocêntrico!
Compreendo que os irmãos que defendem essa tese de ser permitido cantar apenas Salmos no culto, são zelosos, todavia, é um zelo sem sabedoria! É muito comum serem intolerantes com quem pensa o contrário, e isso cheira legalismo e posição bíblica! É verdade que hoje a igreja tem produzido poucas músicas que podem ser entoadas na adoração ao Senhor, todavia, existem irmãos que tem o dom e seriedade para compor músicas bíblicas que glorificam a Deus, como por exemplo o Paulo Cezar do Grupo Logos, com várias músicas, mas destaco uma com a qual términos minha reflexão, Autor da Minha Fé:
Oh Pai, eu queria tanto ver
O meu Senhor descer, vindo me encontrar
Eu posso até imaginar
A refulgente Glória do Senhor Jesus
Transpondo as brancas nuvens no mais puro azul
Onde nem sul nem norte existirá
E em meio a lágrimas, sorrisos de alegria e de prazer
Eu que era cego, agora posso ver
Contemplar, contemplar enfim
Por isso eu canto Glória
REFRÃO
Glória! Glória ao autor da minha fé
Glória! Glória ao autor da minha fé
Oh Pai, eu queria tanto, tanto ouvir
O som que vai abrir o encontro triunfal
Rever amigos que, um dia, em Cristo foram feitos meus irmãos
E agora sim, podemos dar as mãos
Pois temos todos um, somente um, um só Senhor
E eis o consolo que envolve a minha vida
O meu Senhor Jesus que foi morto sim, naquela cruz
Voltará, voltará enfim
Por isso eu canto Glória
[REFRÃO]
Glória ao Senhor!
Glória ao Senhor!
Glória ao Senhor!
O autor da minha fé[12]
 Reverendo Márcio Willian Chaveiro



[1] HODGE, A. A. Hodge, Confissão de Fé de Westminster, Comentada por A.A. Hodge, Puritanos, 1999, p. 377
[2] O Diretório de Culto de Westminster, Puritanos, 2000, pp.63-66
[3] Bíblia de Estudo de Genebra, Cultura Cristã, 2011,  p. 1785
[4] Constituição e Ordem e Anexos, Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil, 2009, p. 9
[5] http://www.executivaipb.com.br/site/constituicao/constituicao.pdf
[6] Dicionário Bíblico Wyciffe, CPAD, 2006, pp. 1734-1735
[7] FEE & STUARTE, Gordon  Fee & Douglas Stuart, Como Ler a Bíblia Livro por Livro, Vida Nova, 2013, p. 157
[8] CARSON,  D. A. Carson, O Comentário de Mateus, Shedd, 2011, p.624
[9] JONES< D. M. Lloyd Jones, Vida no Espírito no Casamento, no Lar e no Trabalho, PES, 1991, pp. 42-43
[10] FOULKES, Francis Foukes, Efésios – Introdução e Comentário, Mundo Cristão, 1963, p. 126
[11] CHAMPLIN, Russel N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado – Versículo por Versículo, p. 626
[12] http://letras.mus.br/logos/400213/

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ADULTÉRIO, DIVORCIO E SEGUNDO CASAMENTO, O QUE A BÍBLIA DIZ?


            Tenho consciência de estar pisando em terreno espinhoso porque envolve variadas interpretações desse tema e sentimentos daqueles que estão vivendo em um segundo casamento. Principalmente em nosso tempo que é rejeitado ardorosamente qualquer posição ortodoxa ou “totalitária” acerca de qualquer assunto para a vida! Contudo, como cristãos que somos, defendemos que a Bíblia é imutável em seus ensinos e que somente ela pode interpretar a nossa realidade, em que está em constante transformação. Logo, me lanço ao desafio de buscar o entendimento correto sobre adultério, divórcio e segundo casamento a luz dos princípios das Escrituras. Sabendo que um artigo não será suficiente para discutir todos os pormenores da questão e que ainda que fosse possível, o autor tem suas limitações, que o impediriam de tal proeza e propriedade! Mas dentro de uma reflexão breve, porém, na busca de ser consistente, discutirei esse assunto com o propósito de contribuir um pouco para o esclarecimento.
            Iniciarei a exposição a partir de Mateus 5. 27-32 proferido por Jesus no Sermão do Monte. Nessa série de mensagens de Jesus no Monte, ele ensina como vive um cidadão do Reino do Céus e contraposição com a vida de um religioso, como pregava os fariseus e escribas. O que levou no final da sua série de mensagens, a multidão ficar maravilhada com seus ensinos (Mt 7 28-29): Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas. A religião judaica com suas tradições rabínicas traziam pesos sobre os judeus que afligiam a alma, mas Cristo trouxe refrigério e alivio com a mensagem do Reino dos céus (Mt 9. 35-38; 11. 28-30)!
O texto de Mateus 5. 27-32, está dentro de uma sequência na mensagem de Cristo que é sempre iniciada com a expressão: Ouvistes que foi dito aos antigos...(5. 21,27,33,38,43), seguido da interpretação correta feita por Ele: ...Eu, porém vos digo....(5. 22,28,34,39,44). O que isso significa? Nos versos 17-20, Jesus havia ensinado que não veio para revogar a Lei, mas para cumpri-la e que ela não passará até que os céus e a terra passem (versos 17-18), nos versos citados acima, ele vai mencionar o Antigo Testamento e as interpretações equivocadas das escolas rabínicas formadas por séculos na religião judaica, e em seguida fornecer a interpretação correta das passagens. Ou seja, Ele não está revogando o que o Antigo Testamento ensinou como ordenança, mas interpretando corretamente. E um dos ensinos que são citados e interpretados é sobre o divórcio e novo casamento.
Os versos 27-30 do capítulo 5, Jesus ensina que o adultério inicia no coração, é ele que precisa ser tratado diante do Senhor! O desejo ardente por outra mulher que não seja nossa esposa, ou de um solteiro cobiçando a mulher do próximo, já é um pecado de adultério e fornicação diante de Deus. Logo, é o coração que precisa ser tratado, porque o ato físico é apenas a consequência natural de um coração em adultério ou pervertido sexualmente, por isso é necessário tomar atitudes radicais com relação aos hábitos que nos levam a tropeçar nessa área. Obviamente, o sentido de amputar é simbólica, apontando para uma amputação na alma e no coração e não literalmente no corpo! É necessário amputar da nossa vida o que nos faz tropeçar, não é literalmente a amputação do olho ou da mão, mas os desejos do coração que concebem tudo isso! A mão ou o olho não age independente do comando que vem da mente e da alma. Essa ação chama-se mortificação da carne, ou como Paulo diz aos Efésios, o despir do velho homem e revestir do novo homem em Cristo (Ef 4.17-32).
Em seguida Cristo diz (verso 31): Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Qual parte do Antigo Testamento Jesus esta citando? É Deuteronômio 24.1-4 que diz: Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado cousa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; e este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der a mão, e a despedir  da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposa-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o SENHOR; assim, não farás pecar a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá por herança. Vejamos algumas situações apresentadas pelo texto que justifica o divorcio:
·         .... por ter ele achado cousa indecente nela...: Se o marido encontrar na mulher algo que seja indecente[1], pode divorciar-se. O que seria algo indecente? Não seria o adultério, que o assunto da exposição de Cristo no Sermão do Monte?
·         ... e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem;...: Se ela ao receber carta de divórcio do marido, por ser indecente, casar-se com outro, por ser a parte ofensora, constitui-se adultério.
·         .... for e se casar com outro homem; e este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der a mão, e a despedir  da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer,...: Percebe que o estado moral dessa mulher, na situação hipotética apresentada pelo texto, é de perversão sexual completa, porque mesmo casando com o segundo o marido, erradamente, ela recebe outra carta de divórcio ou se na hipótese desse segundo marido morrer, o primeiro não pode toma-la novamente como esposa, porque a  primeira aliança foi quebrada pela traição.
Os judeus interpretavam que podiam baseado nessa passagem divorciar-se por qualquer motivo. Existiam escola rabínicas que defendiam que se um judeu encontrasse uma mulher mais bonita que a sua, poderia divorciar-se e casar com ela. Atualmente, tem pastores trocando de esposas, por encontrar mulheres mais jovens na igreja! Mas isso é apenas um comentário a parte para ilustrar como muitos utilizam das Escrituras para legitimar seus desejos imorais!
Portanto, a questão que Cristo está tratando é a interpretação equivocada das escolas rabínicas sobre os motivos aprovados por Deus para que ocorra o divórcio. Ele condena qualquer ação de divórcio por motivos fúteis, que não sejam aqueles que a Escritura autorize, que é encontrar no outro algo “indecente”!
Qual é a interpretação que Jesus faz da Lei? O texto de Mateus 5. 32 diz: Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério. Da mesma forma que apresentei os principais aspectos de Deuteronômio 24. 1-4, farei com esse verso para o melhor entendimento:
·         Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher...: primeiro ensino é que o divórcio não pode ocorrer por outro motivo além daquele que será mencionado em seguida por Cristo. Isso faz com que o cidadão do Reino dos Céus entenda que o casamento é uma instituição de Deus e que os dois se tornam uma só carne, fazendo uma aliança bi lateral, que devem ser mantida a todo custo até o fim (Gn 2. 24). Essa interpretação é confirmada quando os fariseus experimentam a Jesus, perguntando se era lícito ao marido repudiar a mulher por qualquer motivo (Mt 19.1-6) e a reposta de Jesus é a citação de Gênesis 2.24.  
·         ...exceto em caso de relações sexuais ilícitas,...:  A expressão “exceto” implicitamente pode ser entendida como revelando que o divórcio só é permitido em caso de adultério da outra parte, sem que seja obrigatório que a parte ofendida se divorcie,  comenta Dr. Carson.[2] O que significa que é opcional para a parte traída querer ou não o divórcio, porque o casamento é uma aliança bi lateral, e uma das partes quebrou, o que não obriga a parte inocente a manter essa aliança, embora, mediante o verdadeiro arrependimento do ofensor, é o ideal. Foi isso que Jesus reafirmou em Mateus 19. 9 na resposta aos fariseus: Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, ...
O que deduzo do ensino desse texto de Mateus 5. 32 é que o divórcio nunca foi agradável aos olhos do Senhor, pois ele instituiu o casamento para durar até o fim da vida do cônjuge. Mas, é importante lembrar que a instituição veio antes da Queda, quando o homem e a mulher eram perfeitos e se relacionavam perfeitamente. Logo, após a Queda, o pecado causou conflitos no casamento, porque a partir desse momento, são dois pecadores unidos em matrimonio e naturalmente as dificuldades conjugais surgem (Gn 3.16): ...o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará. A mulher não desejará exercer o papel de submissão que foi instituída por Deus (Gn 2. 18), e o marido não a amará naturalmente como deve ser (Ef 5. 22.33), somente cheios do Espírito Santo poderão exercer o amor e o respeito (Ef 5. 18, 33) e refletir progressivamente a relação do Deus triuno com o seu povo! Então, o divórcio foi dado por causa da dureza do coração do homem (Mt 19.8) e não por ser um ideal de Deus para a união do homem e da mulher! A reconciliação, mesmo após o adultério sempre será o melhor caminho, todavia, não sendo possível para a parte ofendida, é direito dela não refazer o casamento com o cônjuge que a traiu e casar-se novamente.
O Dr. Martin Lloyd Jones comenta Mateus 5. 32 ampliando ainda mais a interpretação do texto em relação ao que foi dito até aqui, dizendo que a parte que quebrou  o pacto do casamento não pode casar-se novamente:
O relacionamento daquele homem para com sua esposa tornou-se o mesmo como se ela tivesse morrido; e este homem inocente tem o direito de casar-se de novo. Mais do que isso, se ele é um homem crente, então tem o direito de ter um casamento cristão. Porém, nesse caso, somente ele teria esse direito, e não ela; ou vice-versa, caso o culpado tivesse sido o homem.[3]
A Confissão de Fé de Westminster no Capítulo XXIV, V declara essa mesma interpretação do ensino de Jesus:
O adultério ou fornicação, cometido depois de um contrato, sendo descoberto antes do casamento, dá à parte inocente justo motivo de dissolver o contrato; no caso de adultério depois do casamento, à parte inocente é licito propor divórcio[4], e, depois de obter o divórcio, casar com outrem, como se a parte infiel fosse morta.[5]
Outro motivo que legitima biblicamente o direito de divórcio é o que Paulo afirma em 1 Coríntios 7.15: Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado a paz. Paulo está falando para crentes casados com ímpios, que antes de serem alcançados pela graça, já eram casados, e somente eles converteram ao Senhor. O apostolo diz que, se a parte ímpia quiser abandonar o cristão, por não aceitar a fé do mesmo, o cristão não está obrigado a manter-se casado, pois foi abandonado. Nesse caso de abandono, a parte abandonada pode casar-se novamente. Calvino comentando esse texto diz que o crente não pode separar por razões arbitrarias do descrente, mas se for abandonado, é inocente: ...os crentes devem permanecer unidos aos descrentes, caso estes concordem...pois o anseio pelo divorcio é inconsistente com nossa profissão de fé.[6] Logo, a Bíblia não estimula o divórcio, mas mostra que existem possibilidades, que não dependem só de uma parte, envolvem circunstâncias que podem tornar-se irremediáveis. O divórcio deve ser evitado com todas as forças, mas em caso de adultério e abandono do lar, o cristão tem o direito de separar-se, caso não tenha esperança de restauração!
O Dr. Augustus Nicodemus concorda que o divórcio é possível nesses dois casos, ao escrever um artigo sobre o novo casamento para pastores, uma prática imoral em crescimento no meio pastoral, onde pastores se separam por qualquer motivo, ele faz um breve comentário sobre as possibilidades bíblicas para o divórcio: ...Como calvinista, entendo que o divórcio é permitido naqueles casos previstos na Escritura, que são o adultério e a deserção obstinada (Mateus 19.9; 1 Coríntios 7.15...). Sou contra a sua obtenção por quaisquer outros motivos, mesmo que fazê-lo seja legal no Brasil.[7]
Considerações Finais
Concluo dizendo que o divórcio nunca foi agradável a Deus, pois Ele criou o homem e a mulher para viverem unidos em matrimonio, se complementando e revelando ao mundo a relação pactual dele com o seu povo. Contudo, a Queda ocorreu, e as dificuldades de relacionamento entre o homem e a mulher vieram, podendo ser vencidos apenas pela graça. O pecado pode seduzir um dos cônjuges e leva-lo ao pecado do adultério ou do abandono conjugal, e por isso, a parte ofendida não pode ficar escrava do pecado do outro, tem a opção de separar-se e casar-se novamente!
Entendo que o ideal é sempre a reconciliação, até onde é possível! Tenho procedido dessa forma em meu ministério quando me deparo com casos de adultério, onde mostro para a parte ofendida que tem o direito bíblico de separar, contudo, sempre enfatizo que o caminho melhor é buscar a reconciliação e reconstruir em Cristo o casamento! Mas caso, não consiga confiar mais no ofensor, é um direito a separação! Considero que somente a parte ofendida pode casar novamente, a outra deve arcar com as consequências da quebra do pacto com seu cônjuge e manter-se só até o fim da vida, ou buscar com toda a força que vem do Senhor a reconciliação com a parte ofendida. 
Logo, o melhor é sempre obedecer a Deus e lutar contra nossos pecados, amputando radicalmente todo habito que pode nos levar ao adultério no coração e depois com o corpo! Que o Senhor ajude a cada esposa cristã a respeitar seu marido como ao Senhor, e a nós esposo, a amar e cuidar das nossas esposas como Cristo o faz com a Igreja (Ef 5. 22.33)! A Ele toda a glória!
Reverendo Márcio Willian Chaveiro





[1] O termo hebraico utilizado   traz a ideia mostrar a nudez a outro, usado em Gênesis 3.10. A nudez após a Queda é símbolo de vergonha, sendo permitida apenas no casamento, e fora dele é pecado e abominação ao Senhor. Por isso, a Lei condenava uma mulher e naturalmente o homem, se revelasse sua nudez a outro que não fosse seu cônjuge.
[2] CARSON, D. A. Carson, O Comentário de Mateus, SHEDD Publicações, 2011, p. 190
[3] JONES, Marty Lloyd-Jones, Estudo no Sermão do Monte, FIEL, 1984, p. 243
[4] Negrito meu
[5] A Confissão de Fé de Westminster, Cultura Cristã, 1997,  p.126
[6] CALVINO, João Calvino, 1 Coríntios, Edições Parakletos, 2003,  p.220
[7] http://tempora-mores.blogspot.com.br/2013/05/pastores-divorcio-e-novo-casamento.html)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O QUANTO A TECNOLOGIA TEM NOS APROXIMADO UNS DOS OUTROS?


Sempre gostei de assistir filmes e tirar deles lições para minha vida. São frases, cenas, histórias e estórias, que podem ilustrar muitas realidades vividas na fé. Além disso, gosto muito de observar a ideologia do filme e retirar dessa observação aprendizados de coisas boas e ruins.
Em 2008 foi lançado no cinema o filme Wall-E, dirigido pelo diretor Andrew Stanton[1].  Nesse filme é mostrado uma humanidade vivendo em uma nave no espaço em 2805, por terem abandonado a terra há 700 anos, devido a impossibilidade de continuar vivendo nela, em razão dos gases e poluentes. A terra naquela ocasião tornara um deposito de lixo e totalmente inóspita para a humanidade. É nesse deposito que vivia o simpático robô “Wall-E” que desempenhava bem o seu papel de organizar a bagunça causada pelo lixo trazido por naves dos humanos. Em um certo momento, o robozinho Wall-E se apaixona pela robô Eva e movido pelo “amor” consegue entrar na nave dos humanos para seguir sua amada. Na nave, o diretor Andrew Stanton retrata bem a situação dos tripulantes que nasceram e cresceram dentro de uma nave: todos obesos, sentados diariamente em uma cadeira, não sabem andar, a sensação de tocar o outro, o prazer de sentir a terra em seus pés e mãos, respirar um ar puro e não artificial, absolutamente interligados pela tecnologia, mas completamente afastados um dos outros fisicamente, completamente distantes existencialmente uns dos outros!
O que o filme retrata é a nossa realidade e relação com a tecnologia. Ela é muito importante e preciosa para nossa vida no século XXI! As crianças antes de aprender a andar já sabem manusear um celular de alta tecnologia! Os idosos acessam internet, utilizam celulares com o melhor processador possível, com dois ou mais nano chips! Hoje ficar sem a tecnologia é impensável e pode até causar “depressão”!
 A tecnologia facilita a nossa vida diária em muitos aspectos e de muitas maneiras. Contudo, ela nos influencia a ser impacientes, imediatistas e materialistas! A facilidade que temos a nossa disposição nos acostuma a ter tudo muito rápido e fácil, refletindo naturalmente nas emoções e nas relações sociais. A ansiedade é uma epidemia mundial, produzido por essa ânsia de ver tudo ocorrendo rapidamente, e o contato social, o diálogo, tem sido cada vez mais prejudicado.
O contato social é progressivamente transformado pelas redes sociais, como face bock, watsApp, distanciando fisicamente as pessoas. Dentro das casas, os cônjuges se comunicam por watsApp, mesmo estando um do lado do outro!  A maioria das pessoas andam pelas ruas de cabeça baixa enviando mensagens e sendo impedidas por esses aplicativos de “enxergar o outro”! É substituído o contato físico e a conversa face a face, pelo contato virtual, como bem retratou o filme de Andrew Stanton!
Lembro-me quando era criança, na década de 80 e começo da década de 90, que minha mãe avó me levava as vezes para a fazenda que moravam parentes próximos dela. Era uma casa muito simples, construída com galhos de arvores que é conhecido em Goiás como “casa de pau a pique”[2], colchões preenchidos com palha de milho, o local sem energia, iluminado pela luz de lamparina! Algo impensável hoje! No final do dia, a única coisa que podia ser feito era conversar a beira do fogão a lenha sobre “assombrações”, a conversa predileta na roça! O que causava medo para dormir depois em todos nós, porque podíamos ver o quintal pelas brechas da casa! Mas, apesar de toda a simplicidade daqueles momentos e circunstâncias, existia alegria, porque tinha dialogo, conversas entre parentes e amigos face a face! A televisão iniciou essa separação nos lares e a internet com o computador e celulares, tem consumado essa separação social!
Reverendo Márcio Willian Chaveiro



[1] http://www.adorocinema.com/filmes/filme-123734/creditos/
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Pau_a_pique