quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O CULTO REFORMADO SÓ PODE ENTOAR SALMOS?


            Um membro da igreja que pastoreio perguntou se historicamente e biblicamente é correto cantarmos apenas Salmos em nossos cultos de orientação teológica reformada? É uma boa pergunta e por isso buscarei desenvolver argumentos bíblicos e históricos para contribuir para um bom entendimento sobre essa questão. Obviamente não desenvolverei longamente esse artigo para não ser enfadonho, mas conciso e bíblico na construção.
Realmente a Confissão de Fé de Westminster em seu capítulo XXI – Do Culto Religioso e do Dia de Descanso, na seção V fala sobre cantar com Salmos: ...o cântico de salmos com graça no coração,...[1] E o Diretório de Culto de Westminster também orienta o uso dos Salmos como cântico na igreja durante o culto.[2] Em um dos trechos do Diretório diz: Quando a Igreja estiver novamente reunida,..., um andamento igual no orar, ler, pregar, cantar Salmos e ofertar mais louvor e ações de graça, como aquilo que já foi instruído para a manhã. Então, tudo aparentemente indica que ser calvinista realmente é defender ardorosamente apenas os Salmos como cânticos a serem entoados no culto!
Temos que iniciar primeiramente entendendo qual a importância e função dos símbolos de fé de Westminster nas Igrejas Presbiterianas Reformadas! A Igreja Presbiteriana do Brasil entende que o princípio fundamental para a igreja é a Escritura, e que os concílios e declarações destes, como os do Concilio na Capela de Westminster, devem ser observados se estiverem em conformidade com a Bíblia. Nenhuma Confissão Reformada é infalível em sua interpretação dos textos bíblicos.[3] A Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil, a qual pertenço, defende o mesmo posicionamento da IPB  em sua Constituição e Ordem com a seguinte introdução, item 2: A Igreja tem as Escrituras Sagradas do Antigo e Novo Testamentos como a única regra de fé e prática, adota o regime presbiteriano de governo, aceita os Símbolos de Westminster (Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve Catecismo, tradução brasileira) como seu sistema doutrinário e rege-se pela presente Constituição e Ordem.[4] Tanto a IPB quanto a IPCB tem como símbolos de fé a Confissão de Westminster e os seus catecismos.[5] Não irei aqui mencionar outras igrejas presbiterianas, por não ser esse o proposito, porém a que pertenço e a primeira e mais importante no cenário presbiteriano brasileiro.
O Diretório de Culto de Westminster não é símbolo de fé para as igrejas reformadas, é apenas uma direção litúrgica, com princípios bíblicos gerais e não “mandamentos litúrgicos”, a não ser aqueles que realmente são normativos biblicamente, nesse caso não é por causa do Diretório, mas por causa da Escritura!
O contexto em que a Confissão de Westminster com seus catecismos e o Diretório de Culto foram feitos é de luta para reformar completamente as Ilhas Britânicas, principalmente a Inglaterra. A Igreja Anglicana por muito tempo havia dominado o cenário religioso britânico, impondo sobre os ministros reformados práticas católicas, com o Livro de Oração Comum, que continha muitas orientações contrárias as Escrituras. Os reformados ingleses por lutarem por uma reforma completa, foram chamados ironicamente de Puritanos, pois o lema deles era: Igreja, Liturgia Pura, Vida Pura, e Governo Puro!
No Diretório de Culto de Westminster, publicado pela editora Puritanos, a introdução foi feita pelo Ian Breward que afirmou o seguinte sobre essas resoluções litúrgicas: ...Embora não tivesse obtido êxito e suas metas, e possuísse alguns pontos bem fracos, foi um importante precursor das tentativas de fornecer uma estrutura mais bíblica para o culto, que evocasse uma resposta apropriadamente teocêntrica da parte dos adoradores. Mais adiante e continua:
Os compiladores desejavam apaixonadamente encontrar uma forma de culto que unisse os cristãos da Inglaterra e Gales, Escócia e Irlanda e que fosse aceitável às Igrejas Reformadas da Europa e América do Norte. Procuravam abarcar uma amplitude muito maior na prática e convicção do que a encontrada em qualquer das atuais igrejas britânicas.
A luta deles era ferrenha para limpar a Igreja dos ranços católicos, por isso podemos entender o zelo em orientar as igrejas que cantassem apenas Salmos, algo que não seria rejeitado em nenhuma igreja reformada do mundo da época!
O que a Bíblia diz sobre essa questão? Creio que não preciso mostrar que no Antigo Testamento o povo da Aliança cantava Salmos! O que significa Salmos? Significa uma coleção de cânticos, hinos e poemas hebraicos, que foram compostos em vários períodos da história de Israel.[6] No hebraico Salmo é “mizmor” e no grego o correspondente é “psalm”. O sentido provável dessas palavras é de cânticos acompanhados por instrumentos musicais. Esses Salmos representavam as lutas, esperanças, tristezas, alegrias, do povo da aliança! Eles foram escritos para acima de qualquer outra função, para serem cantados, um por um, não necessariamente na ordem canônica, explica [7]
E o Novo Testamento o que diz sobre isso? Não diz muita coisa sobre cânticos no culto, não existe uma regra absoluta de passos para a liturgia, existem princípios imutáveis, como: a centralidade da adoração ao Deus triuno, a ênfase na pregação da Palavra, a oração, a comunhão, reverência, disciplina, ofertas, e os cânticos de ações de graças (Ap 4.8,10-11; 5. 7-14; At 4.23-25; 1 Co 11.17-34; 14.40; 16.1-4;2 Co 9. 1-15). E os Salmos como cântico? Pense comigo, se fosse uma ordem de Deus para a Igreja de Cristo só cantar Salmos no culto, não haveria muitos textos que reafirmariam isso e deixaria claro, como é caso da Ceia, do batismo, da disciplina, da generosidade financeira, da exposição bíblica, do amor na comunhão...?
Vou expor os poucos textos no Novo Testamento que podem ser utilizados para defender essa tese litúrgica. O primeiro que posso citar é Mateus 26.30, que diz que: E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras. Esse hino cantado por Jesus e os discípulos era algum Salmo? Segundo o Dr. Carson foi cantado provavelmente por eles a última parte de um desses Salmos:114, 115 ou 118, que era chamado de Hallel, que Jesus como líder lia e os discípulos respondiam com Aleluia! O que, sendo assim, deve ter sido muito emocionante![8] Creio que é possível que Jesus com os discípulos tenham cantado um Salmo ou mais, mas seria isso argumento para que a Igreja só cantasse Salmos no culto? Ou a passagem ensina a instituição da Ceia como sendo uma normativa para a Igreja em todos os tempos? É importante dizer, que Dr. Carson nem sequer menciona a possibilidade dessa normativa para a igreja em seu comentário, eu que apenas utilizei um possível argumento nesse sentido e sua incoerência, caso exista! Sem contar que Jesus nesse momento vive a transição do judaísmo para o período da igreja, o que seria natural como judeus cantar Salmos.
Todavia, o texto mais polêmico nesse sentido é sem dúvida Efésios 5.19: falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais. Aqui temos realmente uma menção de louvor musical com salmos pela igreja. Mas seria na passagem uma forma ou conteúdo do cântico, ou a ênfase é uma vida cheia do Espírito Santo que se exterioriza em uma vida diária de adoração com cânticos individuais e coletivos; com ações de graças (verso 20), com submissão mutua nas relações eclesiásticas (verso 21; no casamento com submissão da mulher ao marido e amor do marido a esposa, tendo como padrão em ambos a relação da igreja com Cristo (versos 22-33); na relação de pais e filhos (6.1-4); na relação profissional (6.5-9)? O Dr. Martin Lloyd Jones comenta assim o resultado apresentado por Paulo de uma vida cheia do Espírito Santo: ...Quando os homens e as mulheres são dominados pelo Espírito Santo na mente, no coração e na vontade, essa é o tipo de vida que levam. Prossigamos, continuemos sendo dominados pelo Espírito Santo, que habita em nós como “hospede bondoso e bem disposto.”[9]
Se Paulo está normatizando cantar somente Salmos na igreja, então esta normatizando também escravos em todos os tempos (6.5-9), pois estão no mesmo contexto de ensino! Ninguém concordaria com isso, mas Paulo está dando diretrizes bíblicas sobre o que deve ser feito por aquele que presta culto a Deus cheio do Espírito Santo. Outro aspecto deve ser observado, é que em toda a passagem citada como resultado de uma vida cheia do Espírito é dentro da comunidade cristã, seja casa (como era no período apostólico) seja em prédios como hoje, porém envolve a vida diária do crente em todas as áreas da sua vida e não apenas em comunhão para adoração! O contexto não envolve fortemente o sentido de culto coletivo, mas culto na vida que naturalmente leva ao culto coletivo! Fazer dessa passagem um argumento normativo para ordenar a igreja do século XXI a cantar apenas Salmos, desprezando o contexto da passagem e seu ensino principal, além disso, toda uma história de homens e mulheres de Deus que foram tremendamente usados para compor belos hinos, fundamentados na Escritura, é no mínimo sem sentido!
As expressões usadas por Paulo no texto são todas relacionadas a Salmos? Não, apenas a primeira “psalmos”, os outros termos “hino” e cânticos espirituais” correspondem a cânticos que eram entoados no período romano para um deus herói, que Paulo aqui utiliza para atribuir ao verdadeiro herói e Deus, Cristo![10] Os hinos e cânticos espirituais referem-se muito provavelmente a todos os cânticos que foram produzidos pela igreja primitiva do mesmo caráter bíblico dos Salmos, obviamente não inspirados, mas fundamentados na Escritura.
O apóstolo compõem cânticos a Cristo nesse caráter de vitorioso como os romanos faziam aos seus heróis (1 Tm 3. 16: ...Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espirito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória. Na própria carta aos Efésios existem evidencias fortíssimas de trechos de hinos compostos pela Igreja Primitiva que não eram Salmos do Antigo Testamento como no capítulo 4.4-6, ou 5.14. Vemos outras possíveis partes em 1 Timóteo 1.17: Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém. Ou no capítulo 6.16 dessa mesma carta: o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém. Temos três opções para essas passagens: Paulo era compositor; ou citou uma música biblicamente correta cantada pela igreja primitiva; ou ainda os trechos mesmo tendo toda estrutura de cânticos espirituais, não são!
Existem dados históricos que falam dos cristãos primitivos cantando hinos a Cristo, como sendo fosse um deus, na visão de historiadores seculares, como Plínio.[11] Logo, temos evidencias textuais, contextuais e históricos que demonstram claramente que além dos Salmos, a igreja primitiva cantava hinos compostos por irmãos com o dom para a música!
Considerações Finais
Você pode pensar que estou combatendo a interpretação dos teólogos de Westminster!? Não, eu a subscrevi quando fui ordenado ao ministério! Entendo apenas que não foram inspirados na interpretação das Escrituras, podendo ter cometido falhas. E que no momento histórico que viviam, foi o caminho que acharam para lutar contra as heresias litúrgicas na Inglaterra. Defendo que não tiveram a intenção de normatizar essa prática, mas de fornecer direcionamentos bíblicos para todas as épocas, que é prestar um culto teocêntrico!
Compreendo que os irmãos que defendem essa tese de ser permitido cantar apenas Salmos no culto, são zelosos, todavia, é um zelo sem sabedoria! É muito comum serem intolerantes com quem pensa o contrário, e isso cheira legalismo e posição bíblica! É verdade que hoje a igreja tem produzido poucas músicas que podem ser entoadas na adoração ao Senhor, todavia, existem irmãos que tem o dom e seriedade para compor músicas bíblicas que glorificam a Deus, como por exemplo o Paulo Cezar do Grupo Logos, com várias músicas, mas destaco uma com a qual términos minha reflexão, Autor da Minha Fé:
Oh Pai, eu queria tanto ver
O meu Senhor descer, vindo me encontrar
Eu posso até imaginar
A refulgente Glória do Senhor Jesus
Transpondo as brancas nuvens no mais puro azul
Onde nem sul nem norte existirá
E em meio a lágrimas, sorrisos de alegria e de prazer
Eu que era cego, agora posso ver
Contemplar, contemplar enfim
Por isso eu canto Glória
REFRÃO
Glória! Glória ao autor da minha fé
Glória! Glória ao autor da minha fé
Oh Pai, eu queria tanto, tanto ouvir
O som que vai abrir o encontro triunfal
Rever amigos que, um dia, em Cristo foram feitos meus irmãos
E agora sim, podemos dar as mãos
Pois temos todos um, somente um, um só Senhor
E eis o consolo que envolve a minha vida
O meu Senhor Jesus que foi morto sim, naquela cruz
Voltará, voltará enfim
Por isso eu canto Glória
[REFRÃO]
Glória ao Senhor!
Glória ao Senhor!
Glória ao Senhor!
O autor da minha fé[12]
 Reverendo Márcio Willian Chaveiro



[1] HODGE, A. A. Hodge, Confissão de Fé de Westminster, Comentada por A.A. Hodge, Puritanos, 1999, p. 377
[2] O Diretório de Culto de Westminster, Puritanos, 2000, pp.63-66
[3] Bíblia de Estudo de Genebra, Cultura Cristã, 2011,  p. 1785
[4] Constituição e Ordem e Anexos, Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil, 2009, p. 9
[5] http://www.executivaipb.com.br/site/constituicao/constituicao.pdf
[6] Dicionário Bíblico Wyciffe, CPAD, 2006, pp. 1734-1735
[7] FEE & STUARTE, Gordon  Fee & Douglas Stuart, Como Ler a Bíblia Livro por Livro, Vida Nova, 2013, p. 157
[8] CARSON,  D. A. Carson, O Comentário de Mateus, Shedd, 2011, p.624
[9] JONES< D. M. Lloyd Jones, Vida no Espírito no Casamento, no Lar e no Trabalho, PES, 1991, pp. 42-43
[10] FOULKES, Francis Foukes, Efésios – Introdução e Comentário, Mundo Cristão, 1963, p. 126
[11] CHAMPLIN, Russel N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado – Versículo por Versículo, p. 626
[12] http://letras.mus.br/logos/400213/

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